Carioca, nascida em junho de 1979, Alice Viana Bononi é a nova curadora-chefe do Instituto Collaço Paulo – Centro de Arte e Educação. Ao assumir a função, traz uma bagagem de estudos e experiência hoje centradas em pesquisas no campo da história, teoria e crítica das artes visuais, com ênfase nas relações entre arte, cultura visual, ornamentação, tradição clássica e seus desdobramentos modernos e contemporâneos. Ela chega em Florianópolis em 1997 para estudar. A graduação em arquitetura e urbanismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) ocorre em 2005 e fundamenta até hoje abordagens interdisciplinares.
Professora associada do Departamento de Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), atua nos cursos de artes visuais – licenciatura e bacharelado, lecionando disciplinas vinculadas à teoria e à história da arte. No Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, orienta no mestrado e doutorado, além de supervisionar o pós-doutorado. É mestra em artes visuais pela Udesc (2008) e doutora pela Universidade de São Paulo (2017), com período de estudos na Universität Zürich (UZH), desenvolvendo investigação de caráter teórico-histórico, com forte interlocução entre artes visuais, cultura material e pensamento estético. A produção intelectual concentra-se em temas como teoria da imagem, história do ornamento, tradição clássica, recepção estética e cultura visual, com publicações em livros, capítulos e periódicos qualificados da área.
Diante do novo desafio profissional, Alice Bononi entende que em uma instituição cultural, é preciso administrar fluxos, agendas e projetos, além de “construir ambiência, sustentar vínculos entre as pessoas envolvidas, mediar expectativas e produzir condições para que o trabalho aconteça de modo consistente e sensível”. Em uma possível síntese da atuação, diz que ela se organiza em torno da mediação entre temporalidades, objetos e discursos, entre formas de saber e formas de experiência. “A curadoria, nesse contexto, aparece menos como um campo apartado e mais como desdobramento dessas investigações — uma prática de articulação que torna espacial, pública e sensível um conjunto de questões que emerge da pesquisa e da leitura das obras.”
No cotidiano do trabalho, quer “afirmar um projeto institucional em que coleção, pensamento curatorial, mediação e dimensão pública estejam profundamente articulados. O que está em jogo, a meu ver, é a possibilidade de fazer do instituto um lugar de produção de experiência, de repertório e de imaginação cultural”.
Como explica a sua entrada no Instituto Collaço Paulo? Como toma a decisão de aceitar o convite para ser a nova curadora-chefe da instituição?
Alice Viana Bononi – Minha aproximação antecede o convite formal para a curadoria-chefe e se inscreve em um campo de interlocução que já vinha sendo construído a partir do meu grupo de pesquisa da universidade e do contato com a coleção desde os primeiros movimentos da instituição. Desde então, me pareceu evidente que o instituto não surgia apenas como espaço de guarda e exibição de obras, mas como desdobramento de uma experiência de colecionamento profundamente marcada pela sensibilidade, pela convivência com a arte e pela constituição de um olhar. Esse aspecto é particularmente relevante porque distingue a Coleção Collaço Paulo como um conjunto que não se organiza apenas por critérios de valor histórico ou artístico, mas também por uma trama de afetos, escolhas e relações que lhe confere densidade cultural e espessura simbólica. Trata-se, portanto, de um acervo que demanda não apenas conservação e estudo, mas também uma escuta curatorial atenta à sua dimensão histórica, afetiva e pública. Aceitar o convite significa assumir uma posição de grande responsabilidade no circuito artístico catarinense. Ao mesmo tempo, representa a possibilidade de participar de maneira mais direta da consolidação do instituto como plataforma de pesquisa, mediação e experimentação curatorial. O que me interessa, sobretudo, é contribuir para que a coleção siga sendo ativada por leituras críticas e contemporâneas, ampliando sua capacidade de interlocução com a cidade, com o campo da arte e com diferentes regimes de público.
Como define sua atuação profissional – quem é Alice?
Alice Bononi – Minha atuação se estrutura, antes de tudo, no entrecruzamento entre pesquisa, docência e reflexão crítica em história da arte. É nesse horizonte que venho desenvolvendo meu percurso intelectual: a partir de um interesse continuado pelas imagens, por seus contextos de emergência, pelos regimes de visualidade em que se inscrevem e pelas formas de recepção e significação que produzem ao longo do tempo. Minha pesquisa se voltou, de modo particular, para as relações entre arte, cultura visual e historicidade das formas, com ênfase na tradição clássica, nos estudos sobre o ornamento, nas dimensões decorativas da arte e em seus modos de permanência, atualização e reinterpretação. Nesse percurso, a docência sempre ocupou um lugar estruturante, não apenas como instância de transmissão de conhecimento, mas como espaço de elaboração conceitual, de formação do olhar e de construção compartilhada de repertório crítico. Se eu tivesse de sintetizar essa atuação, diria que ela se organiza em torno da mediação, entendida aqui em um sentido forte: mediação entre temporalidades, entre objetos e discursos, entre formas de saber e formas de experiência. A curadoria, nesse contexto, aparece menos como um campo apartado e mais como desdobramento dessas investigações — uma prática de articulação que torna espacial, pública e sensível um conjunto de questões que emerge da pesquisa e da leitura das obras.
Quais são os seus planos na gestão institucional em que a protagonista é a Coleção Collaço Paulo, iniciada há 40 anos por um casal que crê na arte como possibilidade de sensibilização e transformação humana?
Alice Bononi – Penso a gestão institucional a partir da centralidade da coleção, mas compreendida em chave dinâmica. Não se trata de tomar o acervo como instância estática ou autorreferente, e sim como um campo ativo de produção de sentido, permanentemente suscetível a recontextualizações, deslocamentos de leitura e ativações curatoriais. A Coleção Collaço Paulo traz consigo uma singularidade muito própria: ela é indissociável de uma história de formação do olhar e de uma crença persistente na arte como experiência transformadora. Nesse sentido, meus planos envolvem o fortalecimento de três eixos indissociáveis: pesquisa, difusão e arte educação. No campo da pesquisa, considero fundamental aprofundar o trabalho de estudo, documentação e interpretação do acervo, ampliando sua fortuna crítica e sua inscrição no debate historiográfico e curatorial. No âmbito da difusão, interessa-me desenvolver exposições e programas públicos capazes de colocar a coleção em fricção produtiva com questões contemporâneas, expandindo suas possibilidades de leitura. Já no campo da arte educação, vejo como decisivo consolidar o instituto como espaço de formação sensível e crítica, comprometido com a construção de vínculos duradouros com diferentes públicos. A proposta seria afirmar um projeto institucional em que coleção, pensamento curatorial, mediação e dimensão pública estejam profundamente articulados. O que está em jogo, a meu ver, é a possibilidade de fazer do instituto um lugar de produção de experiência, de repertório e de imaginação cultural.
Graduada em arquitetura e urbanismo, tem mestrado em artes visuais e doutorado em arquitetura e urbanismo. De que modo a singularidade de sua formação pode se refletir neste novo momento do instituto?
Alice Bononi – Minha formação em arquitetura e urbanismo, articulada à trajetória nas artes visuais e à pesquisa em história da arte, permite pensar a prática curatorial a partir de uma perspectiva efetivamente interdisciplinar. A arquitetura me forneceu instrumentos decisivos para compreender o espaço como linguagem: como campo de relações entre corpo, escala, circulação, materialidade e percepção. Essa dimensão é central para a curadoria, uma vez que a exposição não se reduz à reunião de obras, mas se constitui como dispositivo espacial, narrativo e sensível. Em outras palavras, quero dizer que a exposição é também uma escrita no espaço. Ela se organiza por ritmos, proximidades, intervalos, tensões, recorrências e contrastes. É nesse plano que a espacialidade deixa de ser mero suporte e passa a atuar como elemento constitutivo do discurso curatorial. Ao mesmo tempo, a formação em artes visuais e o investimento continuado na pesquisa me permitem aprofundar a leitura das obras em sua densidade histórica, formal e conceitual. Penso que essa confluência entre espacialidade, historicidade e reflexão crítica pode contribuir de modo muito fértil para este momento do instituto, sobretudo no sentido de afirmar exposições e programas que articulem precisão conceitual, consistência curatorial e abertura à experiência do público.
Onde se encontra a prática concreta de uma gestão institucional com o papel de professora, pesquisadora, arquiteta, mãe?
Alice Bononi – Não vejo essas dimensões como esferas estanques, mas como campos que se atravessam e se reconfiguram mutuamente. A prática concreta dessa gestão se encontra justamente nessa capacidade de fazer coexistir regimes distintos de atenção, de responsabilidade e de elaboração, sem reduzir a complexidade de cada um deles. A docência e a pesquisa aportam rigor metodológico, densidade crítica e compromisso com a formação. A arquitetura oferece uma atenção particular às condições espaciais e materiais da experiência. Já a maternidade introduz, de maneira incontornável, uma ética do cuidado, da escuta e da responsabilidade relacional, que também me parece fundamental para pensar o trabalho institucional em arte. Em uma instituição cultural, penso que gerir não é apenas administrar fluxos, agendas e projetos. É também construir ambiência, sustentar vínculos entre as pessoas envolvidas, mediar expectativas e produzir condições para que o trabalho aconteça de modo consistente e sensível.
Como vê os desafios que surgirão diante da Coleção Collaço Paulo, um acervo que se quer voltado sobretudo à arte educação? Como conciliar ideias e interesses múltiplos com a própria experiência profissional?
Alice Bononi – Um dos principais desafios consiste em fazer jus à complexidade interna da coleção sem neutralizar sua potência pública. Trata-se de um acervo atravessado por múltiplas temporalidades, linguagens e contextos de produção, mas também por uma coerência simbólica própria, derivada do gesto que o constituiu. Preservar essa singularidade e, ao mesmo tempo, abrir a coleção a novas formas de leitura e interlocução é um trabalho que exige um cuidado curatorial e imaginação institucional. No caso de uma instituição que se quer fortemente comprometida com a arte educação, acredito que o desafio se amplia: é preciso pensar mediações que não simplifiquem as obras, mas que também não as encerrem em um regime excessivamente especializado. Interessa-me, nesse ponto, uma mediação intelectualmente rigorosa, mas não excludente; uma prática educativa capaz de acolher diferentes repertórios sem renunciar à complexidade da arte. Conciliar ideias e interesses múltiplos implica reconhecer que o espaço institucional é, por natureza, um campo de negociação. A questão seria, entendo eu, organizar as diferenças a partir de um horizonte comum e de um projeto conceitualmente consistente.
O que gostaria de fazer no instituto sob o ponto de vista curatorial? Qual é o papel de um curador?
Alice Bononi – Do ponto de vista curatorial, interessa-me desenvolver projetos que ativem a coleção a partir de leituras transversais, constelações de sentido e aproximações menos evidentes entre obras, temporalidades e contextos. Tenho particular interesse por exposições que operem por relações — e não apenas por classificações —, revelando como certas imagens, formas e sensibilidades podem reverberar entre si de maneira inesperada. Quanto ao papel do curador, entendo-o como alguém que cria condições de visibilidade, inteligibilidade e experiência. O curador não apenas seleciona obras e dispõem no espaço; ele cria narrativas e produz discursos a partir de enquadramentos e relações de vizinhança entre as obras, ele propõe ritmos de leitura e ativa zonas de contato entre o trabalho artístico e seus públicos. Trata-se de uma função que envolve responsabilidade interpretativa, mas também abertura crítica: o objetivo não é fixar sentidos, e sim tornar visíveis certas questões, certos nexos e certas possibilidades de experiência.
Como situa o trabalho da arte educação dentro do sistema e das instituições de arte? Como planeja os diálogos possíveis dentro do instituto?
Alice Bononi – A arte educação ocupa um lugar central nas instituições contemporâneas. Mais do que um setor complementar, ela é constitutiva da própria função social das instituições de arte. Entendo a mediação como uma forma muito legítima de produção de conhecimento — um espaço em que diferentes saberes se encontram e se transformam. No Instituto Collaço Paulo, penso a arte educação como um campo de experimentação, capaz de criar diálogos entre a coleção e os públicos, entre passado e presente, entre experiência estética e reflexão crítica. Isso implica desenvolver programas continuados, formar mediadores, estabelecer parcerias com escolas e universidades, e, sobretudo, construir práticas que valorizem a experiência do visitante como parte ativa do processo.
*Entrevista publicada em 25/03/2026, realizada por Néri Pedroso, jornalista, responsável pela produção de conteúdo e comunicação do Instituto Collaço Paulo.
*Alice Viana Bononi, a nova curadora-chefe do Instituto Collaço Paulo – Centro de Arte e Educação. Foto Divulgação/NProduções