Andrés De Leo e Diana Castillo, ambos professores doutores vinculados ao Centro de Pesquisa e Conservação do Patrimônio da Universidade de Engenharia e Tecnologia (Utec), do Peru, curadores da mostra “Céu e Terra dos Andes”, aberta até julho no Instituto Collaço Paulo – Centro de Arte e Educação, em Florianópolis (SC), reconfiguram o próprio trabalho, retirando três obras para substitui-las por dois óleos sobre tela. “Carro Alegórico da Imaculada Conceição” (ca. 1700) e “Arcanjo Miguel” (1750-1780), representações da Escola de Cusco, tem medidas diferenciadas; em grande dimensão, a primeira mede 164 x 343 cm e a outra, menor, 100 x 80 cm.

Embora não usual o ajuste de um projeto curatorial em andamento, a prática ocorre quando a modificação garante uma qualificação. Sem alterar a expografia, os curadores fazem intervenções pontuais para inserir as mais recentes incorporações da Coleção Collaço Paulo. Não se trata de uma reorganização espacial, nem reconceituação, reavaliação crítica ou nova abordagem com possível impacto no programa de arte educação. A intenção da mudança está relacionada ao refinamento pictórico evidenciado em três trabalhos melhor executados que permitem ampliar o conhecimento em torno da arte cusquenha que Joana Amarante, coordenadora do Núcleo Educativo do Instituto Collaço Paulo, ajuda a contextualizar: a Escola de Cusco funciona no período colonial entre os séculos 16 e 18, e é tida como o primeiro centro de formação de ensino de técnicas artísticas europeias nas Américas. A palavra “cusquenho”, segue ela, refere-se à cidade de Cuzco, capital do Império Inca e, no campo artístico, às representações pictóricas coloniais hispano latino-americanas produzidas, principalmente, nos países andinos. “Sua singularidade estética, ampara-se na confluência de dois aspectos formadores distintos: de um lado a referência da pintura europeia, principalmente da espanhola, flamenga e italiana e, do outro, pela inserção de elementos iconográficos da flora e fauna nativas como pano de fundo que apareceram posteriormente entre os séculos 17 e 18”, explica Amarante.

 

Dogma e poder político

“Carro Alegórico da Imaculada Conceição”, que surpreende pela dimensão, aborda o triunfo da Imaculada Conceição. Sobre a obra, os curadores informam: “A Virgem, alada e vitoriosa, lança penas de suas asas, destinadas aos que, com seus escritos, defendem o dogma de sua Imaculada Conceição. Essas letras, por sua vez, triunfam ao derrubar e arrastar, por meio de um carro de vitória, os que duvidam de sua pureza e virtude. Sem um só significado religioso, a representação também está ligada a um poder político. Serve para consolidar um dogma que, embora oficialmente aceito apenas em 1853, é defendido pela Espanha desde o século 16, chegando inclusive a promover a Imaculada como padroeira do reino”.

 

Sem guardar tempo ou tema

Em outro âmbito, Marcelo Collaço Paulo, diretor-presidente do Instituto Collaço Paulo, lembra que “a coleção é algo dinâmico, não guarda tempo ou tema. As obras pedem passagem. Isto aconteceu com duas obras cusquenhas oferecidas já no percurso da exposição ‘Céu e Terra dos Andes’, ambas maravilhosas, fui fisgado desde a apresentação. Não podia deixar passar. Nestes anos de experiência no colecionismo, aprendi que obra boa não passa duas vezes na sua frente. Ao incorporá-las na coleção, pensei que deveriam ter no momento um melhor destino do que a reserva técnica. Consultei os curadores que, de pronto, desejaram a sua entrada na mostra. Expostas, as novas iconografias estão dando um sabor a mais no percurso expositivo. A de grande formato mostra o triunfo da Imaculada Conceição, traz debates sobre dogmas, catequese e poder político”, diz Collaço Paulo.

A introdução dos novos trabalhos estimula uma outra ação dentro da mostra. Referência na atividade em Santa Catarina, a conservadora-restauradora Sára Fermiano, especializada em museologia pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), atende a Coleção Collaço Paulo desde 2006. Neste mês de abril, nas segundas e quartas-feiras, entre 14h30 às 17 horas, ela restaura a obra “Carro Alegórico da Imaculada Conceição” (164 x 343 cm) que integra a mostra “Céu e Terra dos Andes”, aberta até julho com entrada gratuita. Trata-se de uma oportunidade única para conhecer um acervo raro e conversar com a profissional, conhecendo melhor a atividade que ajuda a proteger os bens artísticos nacionais.

 

Apoio cultural

A exposição convida o público a descobrir a riqueza espiritual, técnica e simbólica da arte da América Latina. A colaboração entre o Instituto Collaço Paulo e a Utec fortalece o intercâmbio acadêmico e cultural entre o Peru e o Brasil. A iniciativa conta com o apoio de Utec, Sesi, Ibagy, Corporate Park e Paradigma Cine Arte.

Os especialistas peruanos reúnem cerca de 40 obras do núcleo de arte andina da Coleção Collaço Paulo, compostas por pinturas, objetos, artefatos, registros audiovisuais e materiais de ateliê. Com o interesse do público visitante pelo acesso a obras de arte do vice-reinado, “Céu e Terra dos Andes” se insere no objetivo do Instituto Collaço Paulo de promover o diálogo entre arte e educação na América Latina, e no compromisso da Utec em difundir o conhecimento do patrimônio cultural peruano em âmbito internacional.

 

Sobre Diana Castillo

Arquiteta especializada em conservação e gestão do patrimônio cultural. Doutora em história da arte pela Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). Atualmente atua como pesquisadora no Centro de Pesquisa e Conservação do Patrimônio e como professora na Universidade de Engenharia e Tecnologia do Peru (Utec). É membro dos seminários internacionais Escultura Virreinal e Retablos Hispanoamericanos do Instituto de Investigações Estéticas da Unam. Atualmente atua como coordenadora do mestrado em gestão de coleções e conservação preventiva da Utec. Suas pesquisas recentes concentram-se no estudo técnico e material da arte virreinal peruana.

 

Sobre Andrés De Leo

Arquiteto formado pela Uabjo, México. Mestre em história da arte pela Unam, com menção honrosa, prêmio ao mérito acadêmico e melhor tese em história da arte. Doutor em história da arte pela mesma instituição, onde também obteve menção honrosa. Colaborou durante 17 anos no projeto Catálogo de Bens Artísticos com Valor Patrimonial Contidos em Recintos Religiosos do Instituto de Investigações Estéticas da Unam. Membro ativo do seminário internacional de pesquisa La Plata en España y México – Siglos 16 al 19 do Inah e membro do seminário internacional de pesquisa sobre Retablos Hispanoamericanos da Unam. Foi responsável pela curadoria do Museu do Templo de São Pedro Apóstolo em Andahuaylillas, Peru, assim como da exposição “Plus Ultra. Lo Común y lo Propio d la Platería Novohispana” na Casa de México na Espanha, em Madri. Coordenou as exposições “In_visible – El Arte Visto por la Ciencia”, “María Materialidad Divina”, no Museu Pedro de Osma, Peru, e “Ecos del Virreinato de Peru”, em Madri, Espanha. Participou de fóruns nacionais e internacionais na Espanha, Portugal, Guatemala, Equador, Peru e Estados Unidos, com conferências sobre as suas principais linhas de pesquisa: humanidades digitais, prataria, retábulos, pintura e arquitetura dos vice-reinados novo espanico e peruano.

 

Serviço

O quê: exposição “Céu e Terra dos Andes”, curadoria de Andrés De Leo e Diana Castillo

Quando: até 11.7.2026, seg. a sáb., 13h às 18h30

Onde: Instituto Collaço Paulo – Centro de Arte e Educação, rua Des. Pedro Silva, 2.568, bairro Coqueiros, Florianópolis (SC), tel.: (48) 3025-4058

Quanto: gratuito

 

Realização

Instituto Collaço Paulo – Centro de Arte e Educação

 

Apoio

Centro de Pesquisa e Conservação do Patrimônio da Universidade de Engenharia e Tecnologia, Sesi, Ibagy, Corporate Park e Paradigma Cine Arte

 

Saiba Mais

www.institutocollacopaulo.com.br

@institutocollacopaulo

educativo@institutocollacopaulo.com.br

Teaser 2025

Foto 1

*Sára Fermiano restaura o óleo sobre tela “Carro Alegórico da Imaculada Conceição”

Julia Heidmann/Fotos Divulgação

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