Entre o Brasil e a França desde 1992, casado com uma brasileira, o curador independente Marc Pottier atua em trânsito internacional, próximo de museus, galerias e instituições, exercendo influências e articulações. Especializado em arte contemporânea e a arte em espaços públicos, põe o conhecimento e a expertise da atuação no Ministério das Relações Exteriores Francês, como adido cultural no Rio de Janeiro e em Lisboa, a favor do circuito de artes visuais do Brasil.
Desde 2024 atua como diretor artístico de A.Galeria, espaço cultural instalado no sétimo andar do Primavera Office, no Passeio Primavera, em Florianópolis (SC). A iniciativa de Myriam e Valério Gomes associa-se a um projeto iniciado em 2023 com a instalação de uma galeria de arte a céu aberto, no jardim, onde é possível apreciar uma coleção de esculturas. O casal segue o conceito urbanista que prega ecossistemas inovadores e têm a cultura como prioridade, no caso, uma combinação entre arte e natureza com um acervo contemporâneo que dialoga com as urgências da cidade e o momento disruptivo mundial.
Neste momento, Pottier assina a curadoria da mostra “Da Natureza para a Obra”, em cartaz em A. Galeria, até 1º de agosto. No acesso à significativa coleção do casal Andrea e José Olympio da Veiga Pereira, a seleção agrega obras que condensam 40 anos de arte contemporânea brasileira. O recorte contempla 26 nomes como Nara Ghichon, única representação de Santa Catarina, ao lado de Vik Muniz, Claudia Andujar, Frans Krajcberg (1921-2017), Jaider Esbell (1979-2021), Jonathas de Andrade, Paulo Nazareth, Paulo Pasta, Sandra Cinto, entre outros. As esculturas, pinturas, fotografias, instalações e vídeos abarcam poéticas de artistas indígenas e afrodescendentes, além de estabelecer um curioso arco geracional com a inserção de Andujar, Véio e Krajcberg, o legado na questão indígena e ambiental. Na diversidade dos artistas, técnicas, linguagens, escalas, saberes e gerações, a mostra, segundo o curador, é “manifesto” sobre “o Vivo”, o principal tema a ser abordado na atualidade.
Nesta conversa, o curador comenta a experiência em Florianópolis, à luz de um projeto em desenvolvimento urbano e cultural, aborda o colecionismo, a vocação democrática da arte, as garantias ao seu acesso, o conhecimento sobre a arte de Santa Catarina. Pottier quer contribuir para atrair artistas nacionais e internacionais e apresentar importantes coleções, como na atual mostra. Pretende “colocar Floripa no mapa cultural nacional, inicialmente, e depois internacionalmente (aí é onde eu agrego mais valor)”.
Sente-se um iniciante na cidade, o que já conhece o estimula a seguir na pesquisa e aprendizado. Percebe ações no âmbito da ampliação do conhecimento, o valor das iniciativas privadas no contexto atual da arte brasileira, interessado em observar como esses projetos em construção contribuem com o dinamismo brasileiro. “Inhotim é incomparável”, diz ele, que adapta propostas artísticas às encomendas, inspirado na diversidade do Brasil que, segundo ele, não existe como uma entidade única. “É tão vasto que poderíamos falar de vários ‘brasis’.”
No tema curadoria e colecionismo recomenda sempre observar a obra de arte com atenção, inserindo-a no amplo contexto da história da arte, pois “a obra é julgada com base em anos de trabalho”. Em Florianópolis, Pottier mantém a amizade de longa data de Marcelo Collaço Paulo, diretor-presidente do Instituto Collaço Paulo, acompanha as exposições, certo de que esse trabalho “também contribui para a ambição de apresentar uma Floripa culturalmente rica”.
Como vê o desafio de tornar a arte contemporânea, numa linguagem mais acessível ao grande público?
Marc Pottier – Tornar a arte acessível a todos é algo natural. Não existe artista que trabalhe sem pensar em compartilhar sua obra com o maior número possível de pessoas. Instituições culturais, grandes eventos de arte como bienais e curadores já compreenderam isso e estão desenvolvendo programas voltados para escolas, universidades, idosos, prisões e outros, buscando alcançar todos os públicos. Pertencemos também a uma geração extraordinariamente dinâmica, na qual a arte pública reina. A arte pode ser encontrada em quase todos os lugares hoje em dia: em parques, metrôs, aeroportos, prédios novos, escolas, alguns hotéis… não há cidade que não tenha um festival ou um bairro dedicado à arte urbana, e muitos países têm leis que exigem que uma certa porcentagem dos orçamentos de construção seja destinada à arte em novos edifícios. Isso para dizer que hoje parece que tudo foi feito para garantir que o público entenda que a arte é acessível a todos e não reservada a uma elite.
Qual a sua impressão das artes visuais de Santa Catarina?
Pottier – Ainda sou iniciante, tendo descoberto Floripa pela primeira vez em abril de 2024. Mesmo já tendo curado exposições com artistas de Santa Catarina (Ilca Barcellos, na Casa Hurbana; Clara Fernandes e Rubens Oestroem na A.Galeria; Walmor Corrêa e Lindote a seguir; e Nara Guichon na seleção da nossa quinta exposição coletiva, “Da Natureza para a Obra”, ainda tenho muito a aprender. Mas o que já vi também, por exemplo, em Silvana Macedo e Juliana Hoffmann, me leva a crer que o conjunto de artistas desse Estado brasileiro é realmente notável, me inspira a continuar minha pesquisa e aprender ainda mais.
Como vê as iniciativas de formação de institutos e espaços expositivos novos em Florianópolis?
Pottier – Tenho a sorte e o privilégio de atuar como diretor artístico da A.Galeria, um espaço cultural dedicado à exploração do conceito de arte e natureza (em resumo), com condições de trabalho ideais e uma equipe dedicada. Acredito que podemos contribuir, à nossa maneira, para atrair artistas nacionais e internacionais e apresentar importantes coleções, como é o caso atual da coleção de Andrea e José Olympio da Veiga Pereira. Também convidamos a Pinakotheke Cultural para a Casa Hurbana com a exposição “Visões do Brasil”, que apresentou uma coleção histórica de artistas brasileiros modernos. Tudo isso cria uma atmosfera dinâmica e impulsiona novas redes, atrai novos públicos para Floripa. Junto aos nossos amigos do Instituto Collaço Paulo – Centro de Arte e Educação e do Centro Cultural Veras, essas iniciativas privadas complementam a programação das instituições culturais. Elas já estão transformando o cenário, geram uma energia positiva cujo impacto se estende para além de Floripa e de Santa Catarina.
Em trânsito entre a França, Rio, São Paulo, Paraná, Fortaleza e Florianópolis. Onde estão as coincidências e as diferenças? Diante deste espectro multicultural, como se situa a arte e as suas escolhas?
Pottier – A meu ver, o Brasil não existe como uma entidade única. O país é tão vasto que poderíamos falar de vários “brasis”. O que me impressiona, como curador francês que conhece o Brasil desde 1992 (comecei no Rio com Tunga (1942-2016), que expus nos EUA e em Veneza, com Lygia Pape (1927-2004), é que o número de artistas talentosos, onde quer que se vá, parece inesgotável. A grande diversidade cultural do Brasil fomenta a criatividade. Também é muito interessante ver novas “tribos artísticas” florescendo; os afrodescendentes estão finalmente sendo reconhecidos por seu verdadeiro valor. A presença de Rosana Paulino no Pavilhão Brasileiro da Bienal de Veneza não é coincidência, mas o ápice de uma carreira notável. As tribos indígenas produziram artistas incríveis como Jaider Esbell e Denilson Baniwa; a arte de rua está explodindo… O que mais me interessa é observar como projetos privados estão se desenvolvendo e contribuindo para esse dinamismo brasileiro. Inhotim é incomparável, mas outros, sem dúvida, virão a “competir” seriamente com ele: Usina de Arte, perto de Recife (PE); Momesso, em Londrina (PR), Cidade Matarazzo de Alexandre Allard, em São Paulo (SP). Nesse contexto, adapto minhas propostas artísticas às encomendas, inspirando-me nessa grande diversidade. Como indica a A.Galeria, trata-se de um espaço cultural dedicado a uma profunda reflexão sobre a natureza. Isso norteia todo o processo de seleção. Em meu projeto mais recente no sítio de Vila Velha, perto de Curitiba (PR), a seleção de artistas locais e nacionais baseou-se em sua capacidade de criar uma obra de arte permanente ao ar livre que dialogasse de forma inteligente com a excepcional paisagem rochosa do local.
Qual o papel do colecionismo no atual panorama da arte do Brasil?
Pottier – Em todos os países do mundo, as coleções começam com artistas locais. Como já dissemos, o Brasil é um país com uma diversidade muito ampla que se estende muito além do conhecido eixo Rio-São Paulo. Cabe, portanto, às coleções, melhor exibir essa formidável complexidade. Além disso, estamos em uma parte do mundo onde os vizinhos da América Central e outros países do Sul Global também têm cenas artísticas de destaque. É isso que queremos apresentar na programação do futuro Pompidou-Paraná, em Foz do Iguaçu (PR). Ademais, é sempre eficaz justapor artistas locais com grandes representantes de outras cenas artísticas — americanas, europeias, asiáticas e assim por diante. Sua coexistência permite ver o quão bem os artistas brasileiros se destacam. É um efeito espelho em que todos se beneficiam.
A coleção do casal Andrea e José Olympio Pereira se compõe de cerca de 2500 obras de arte contemporânea brasileira. Como é selecionar diante da vastidão? O que considera estruturante no tema arte e natureza que se verifica na mostra “Da Natureza para a Obra”, a sua quinta curadoria em A.Galeria?
Pottier – Para ser sincero, quando começamos o projeto, a curadora da coleção, Sophia Wathely, que conhecia a direção “ecológica” desejada, já havia preparado uma ampla seleção de obras disponíveis. Eu simplesmente pedi a ela que acrescentasse algumas peças de certos artistas de quem gosto particularmente e que imaginava como parte da coleção. Depois, a realidade obrigou a adaptar a seleção; por exemplo, as obras de Janaina Tshäpe eram grandes e frágeis demais para caber no 7º andar, e não conseguimos encontrar local adequado para uma escultura de Tunga. O interessante foi ver a quantidade impressionante de obras na coleção que se encaixavam no tema. A.Galeria tem 300 metros quadrados, poderia ter montado a exposição em um espaço duas vezes maior. Isso só demonstra o quanto os artistas brasileiros estão conscientes da questão do Antropoceno.
O que um curador não pode cometer diante de uma coleção de arte?
Pottier – Nunca se deixe seduzir pelo canto da sereia do mercado de arte, pelas tendências que impulsionam certos artistas por diversos motivos relacionados a redes de contatos ou mudanças políticas. Sempre observe a obra de arte com atenção, inserindo-a no contexto mais amplo da história da arte. Nunca se precipite e lembre-se sempre de que uma obra é julgada com base em anos de trabalho.
De modo regular, você tem vindo a Florianópolis desde a inauguração de A.Galeria em 2024. Qual é a sua responsabilidade diante da cidade como curador do espaço?
Pottier – Quando Myriam e Valério Gomes me convidaram, aceitei imediatamente porque não se tratava apenas de mais um projeto de centro de arte, mas de uma ambição muito maior que me empolgou. Nosso projeto visa colocar Floripa no mapa cultural nacional, inicialmente, e depois internacionalmente (aí é onde eu agrego mais valor). Tenho a sorte de trabalhar em diversas cidades brasileiras, e muitas delas são pouco conhecidas. Por exemplo, percebo frequentemente que, se você não menciona Curitiba ao falar do Museu Oscar Niemeyer (MON), as pessoas que não moram lá presumem que se trata do Museu Niemeyer, em Niterói (RJ). Muitos cariocas querem ir em Niterói ver as minhas exposições do MON de Curitiba! Floripa é conhecida por alguns por sua ilha e praias, mas ainda não foi considerada sob uma perspectiva cultural. É esse desafio que me entusiasma profundamente. O tema “natureza”, evidente no Garden Center de Myriam e no projeto de cidade do futuro de Valério, também me pareceu o óbvio a ser desenvolvido. Dessa perspectiva nacional e, sem dúvida, internacional, esse “manifesto” sobre “o Vivo” surge como o principal tema a ser abordado hoje.
Desde 2024, você acompanha a agenda de exposições do Instituto Collaço Paulo – Centro de Arte e Educação, mantendo um contato fraterno com o diretor-presidente Marcelo Collaço Paulo. Como vê a iniciativa?
Pottier – A amizade com Marcelo Collaço Paulo é antiga. Tivemos a sorte de conhecê-lo quando ele comprou algumas aquarelas de Victor Meirelles (1832-1903) de meus sogros brasileiros. Ele foi, portanto, a primeira pessoa para quem liguei quando cheguei a Floripa pela primeira vez, em abril de 2024, a convite de Myriam e Valério Gomes, com quem ele e sua mulher têm uma relação muito próxima. O Instituto Collaço Paulo é muito dinâmico, mescla habilmente diferentes períodos e sempre incorporando um toque de arte contemporânea. Admiro muito a estrutura educacional que ele criou. O instituto também contribui para essa ambição de apresentar uma Floripa culturalmente rica.
*Entrevista publicada em 28/05/2026, realizada por Néri Pedroso, jornalista, responsável pela produção de conteúdo e comunicação do Instituto Collaço Paulo
*Myriam Consonni Gomes e Marc Pottier, na mostra “Da Natureza para a Obra”, diante da obra “Sol Amarelo” (2008), de Sandra Cinto
Taísa Rodrigues/Foto Divulgação