Com o título “Devoção e Cores da Arte do Vice-Reinado nos Andes”, o décimo quarto Instituto Conversa, programa educativo do Instituto Collaço Paulo – Centro de Arte e Educação, está disponível no Youtube e apresenta um diálogo singular com especialistas em arte do período virreinal que vivem no Peru e assinam a curadoria da exposição “Céu e Terra dos Andes”. No dia 3 de dezembro de 2025, a iniciativa reúne Andrés De Leo e Diana Castillo, ambos do Centro de Pesquisa e Conservação do Patrimônio da Universidade de Engenharia e Tecnologia (Utec), do Peru. Um dia depois, junto ao diretor-presidente do instituto, Marcelo Collaço Paulo, eles conduzem uma visita mediada.
Nas duas ocasiões, os renomados professores doutores apresentam e falam sobre o conceito curatorial que resulta na reunião de 40 obras do núcleo de arte andina da Coleção Collaço Paulo, um conjunto de pinturas, objetos, artefatos, registros audiovisuais e materiais de ateliê que ampliam o entendimento sobre a produção artística da época virreinal ou o chamado vice-reinado, na América espanhola, que ocorre entre 1521 e 1821, quando a Coroa Espanhola, dividida inicialmente nos Vice-Reinos da Nova Espanha e do Peru, busca dominar uma sociedade mestiça por meio da catequese e da intensa exploração de recursos da natureza. Em 1543, além de administrar o Peru, a Espanha controla as terras do Panamá, Colômbia, Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, parte da Bolívia e, em certo tempo, a Venezuela.
A maior parte das obras da exposição são oriundas da chamada Escola Cusquenha, uma referência geográfica à cidade peruana de Cusco, antiga capital do Império inca de onde surge uma produção artística influenciada pelo renascimento italiano, maneirismo, arte bizantina, flamenga e do barroco espanhol. Sem igual, essas representações impressionam pela riqueza dos detalhes dos ornatos e panejamentos, que ficam entre o requinte e o suntuoso, trazendo também a exuberante fauna e flora da região, entre outros aspectos curiosos no uso dos materiais.
No Brasil, pela primeira vez, diante de uma atenta plateia, Andrés e Diana apontam para a complexidade do que eles denominam como um sistema de representações que, ao chegar na América, envolve uma mistura de relações, de diferentes formas de expressão, de países, correntes artísticas e momentos distintos, abrangendo as tradições da Espanha – as sevilhanas e as madrilenhas, da Itália e dos indígenas. Neste sentido, diz Andrés, “é complicado definir o cusquenho”.
Novas investigações e surpresas
No Instituto Conversa, os especialistas em patrimônio andino definem as peças da mostra “Céu e Terra dos Andes” como maravilhosas. Segundo Andrés, elas dão a oportunidade de seguir investigando e alcançar surpresas. “Quando se pensa já ter visto muito, surge em Florianópolis uma coleção tão importante, que dá abertura não só para estudar uma ou outra peça, mas também reunir um conjunto com um discurso que se projeta em várias linhas de pesquisa”.
Andrés e Diana demonstram com imagens como constituíram os eixos temáticos, a relação de cores escolhidas para as salas em tons celestes ou terrosos, esses em referência às montanhas agrestes da região andina, com pouca vegetação, ao contrário do que se vê na Ilha de Santa Catarina, onde o verde das matas se destaca. Expõem, com exemplos, como que no decorrer dos anos outros artistas apropriam-se, buscam a tradição e atualizam a imagética andina – como é o caso do fotógrafo peruano Martín Chambi (1891-1973), que registra o cotidiano da população nativa de seu país.
Andrés também chama a atenção para o som ambiental que toma conta da exposição, uma raridade. Composta em 1631 pelo frei Juan Pérez de Bocanegra, Hanaqpachaq Kusikuynin, é considerada a primeira composição polifônica escrita na América. Cantada em língua quíchua, transforma a linguagem musical europeia em um instrumento que evoca a flora, a fauna dos Andes e a imagem simbólica de Maria, figura que transcende a voz e os instrumentos.
O acesso dado à riqueza espiritual, técnica e simbólica da arte da América Latina aproxima o Instituto Collaço Paulo e o Centro de Pesquisa e Conservação do Patrimônio da Universidade de Engenharia e Tecnologia (Utec), além dos parceiros culturais Sesi, Ibagy, Corporate Park e Paradigma Cine Arte que ajudam a dar amplitude ao intercâmbio acadêmico entre o Peru e o Brasil. A mostra “Céu e Terra dos Andes” promove diálogo e conhecimento na América Latina, concretizando os compromissos desses parceiros interessados na difusão dos patrimônios culturais em âmbito internacional.
De Lima, após o retorno do Brasil, Andrés e Diana avaliam: “A experiência em Florianópolis foi profundamente enriquecedora em múltiplos níveis. Em primeiro lugar, agradecemos a oportunidade de realizar a curadoria de uma exposição de arte virreinal andina que despertou um interesse genuíno e teve uma recepção particularmente calorosa por parte do público. Foi especialmente significativa a curiosidade, as perguntas e o entusiasmo de visitantes que, em muitos casos, se aproximavam dessa produção artística pela primeira vez”.
Nuances reflexivas
O programa Instituto Conversa oferece a possibilidade de aprendizagem e diálogo sobre a história e o sistema de arte que se articulam entre um conjunto de variáveis, tendo a obra de arte como protagonista. Os pesquisadores Francine Goudel (3.11.2022 e 24.9.24), Ana Cavalcanti (17.11.22), Ylmar Corrêa Neto (8.12.22), Denise Mattar (15.12.22), Ylmar Corrêa Neto (15.3.23), Sandra Makowiecky (25.4.23), Denise Mattar (20.7.23), Daiana Schwartz (22.11.23), Sára Fermiano (12.3.24), Gustavo Nazareno (7.5.24), Raul Antelo (29.11.24), Fran Fávero (17.9.25), Diana Castillo e Andrés De Leo (3.12.2025) totalizam 14 encontros realizados entre 2022 e 2025, no Ateliê de Imersão.
Ativado de modo híbrido, presencial ou via on-line, só Ana Cavalcanti, Daiana Schwartz e Gustavo Nazareno participaram em ambiente virtual. Sempre relacionado à exposição vigente, o tema dos encontros aposta na construção de sentidos, em novas nuances reflexivas em torno do colecionismo, da história da arte brasileira, sobre o sentido social e estético das obras.
Sobre Diana Castillo
Arquiteta especializada em conservação e gestão do patrimônio cultural. Doutora em história da arte pela Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). Atualmente atua como pesquisadora no Centro de Pesquisa e Conservação do Patrimônio e como professora na Universidade de Engenharia e Tecnologia do Peru (Utec). É membro dos seminários internacionais Escultura Virreinal e Retablos Hispanoamericanos do Instituto de Investigações Estéticas da Unam. Atualmente atua como coordenadora do mestrado em gestão de coleções e conservação preventiva da Utec. Suas pesquisas recentes concentram-se no estudo técnico e material da arte virreinal peruana.
Sobre Andrés De Leo
Arquiteto formado pela UABJO, México. Mestre em história da arte pela Unam, com menção honrosa, prêmio ao mérito acadêmico e melhor tese em história da arte. Doutor em história da arte pela mesma instituição, onde também obteve menção honrosa. Colaborou durante 17 anos no projeto Catálogo de Bens Artísticos com Valor Patrimonial Contidos em Recintos Religiosos do Instituto de Investigações Estéticas da Unam. Membro ativo do seminário internacional de pesquisa La Plata en España y México – Siglos 16 al 19 do Inah e membro do seminário internacional de pesquisa sobre Retablos Hispanoamericanos da Unam. Foi responsável pela curadoria do Museu do Templo de São Pedro Apóstolo em Andahuaylillas, Peru, assim como da exposição “Plus Ultra. Lo Común y lo Propio d la Platería Novohispana” na Casa de México na Espanha, em Madri. Coordenou as exposições “In_visible – El Arte Visto por la Ciência”, “María Materialidad Divina”, no Museu Pedro de Osma, Peru, e “Ecos del Virreinato de Peru”, em Madri, Espanha. Participou de fóruns nacionais e internacionais na Espanha, Portugal, Guatemala, Equador, Peru e Estados Unidos, com conferências sobre as suas principais linhas de pesquisa: humanidades digitais, prataria, retábulos, pintura e arquitetura dos vice-reinados novo espanico e peruano.
Serviço
O quê: exposição “Céu e Terra dos Andes”, curadoria de Andrés De Leo e Diana Castillo
Quando: 3.12.2025 a 11.7.2026, seg. a sáb., 13h às 18h30
Onde: Instituto Collaço Paulo – Centro de Arte e Educação, rua Des. Pedro Silva, 2.568, bairro Coqueiros, Florianópolis (SC), tel.: (48) 3025-4058
Quanto: gratuito
Serviço
O quê: Instituto Conversa “Devoção e Cores da Arte do Vice-Reinado nos Andes”, com Andrés De Leo e Diana Castilho (Lima, Peru)
Disponível em: www.youtube.com/@institutocollacopaulo
Realização: Instituto Collaço Paulo – Centro de Arte e Educação
Apoio: Centro de Pesquisa do Patrimônio da Universidade de Engenharia e Tecnologia do Peru, Sesi, Ibagy, Corporate Park e Paradigma Cine Arte
*Diana Castillo e Andrés De Leo no Instituto Collaço Paulo – NProduções/Foto Divulgação