A Coleção Collaço Paulo se expande, cumpre com o seu papel social, saindo da reserva técnica para ampliar o contato com o público. Três obras, uma escultura e duas pinturas, pertencentes ao Instituto Collaço Paulo – Centro de Arte e Educação ganham visibilidade neste ano em três exposições em São Paulo, uma delas aberta até 11 de janeiro de 2026, na 36ª Bienal de São Paulo, realizada no Pavilhão do Ibirapuera. A outra é “História do Brasil – Branca” (2021), uma pintura do artista catarinense Sérgio Adriano H, que compõe a mostra “CORpo Manifesto”, incialmente vista no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro (RJ) e, agora, no CCBB de São Paulo, onde fica até 9 de fevereiro do próximo ano. “Adalgisa Nery” (ca 1928), um óleo sobre tela, esteve em “Ismael Nery: Crônica e Sonho”, exposição já encerrada na Galeria Danielian São Paulo.

Criação da artista baiana Nádia Taquary, “Mulher Pássaro”, em destaque na 36ª Bienal, encantou os visitantes de “Máscara Humana”, quinta mostra promovida pelo instituto entre outubro de 2024 e abril de 2025, fazendo diálogo com as obras de Rodrigo de Haro (1939-2021). Em São Paulo, a obra, uma escultura em bronze, com cerca de 300 quilos, aparece na instalação “Ìrókó: A Árvore Cósmica (2025)” que nesta trajetória artística acentua a fatura com a forja e os materiais pesados, técnica pouco adotada pelas mulheres pelos esforços que exigem tempo e pendores específicos. A solicitação do empréstimo ao Instituto Collaço Paulo está relacionada à dificuldade na execução de um novo trabalho em curto prazo para o projeto idealizado à Bienal. O fato determinou uma coincidência, pois os dois únicos exemplares desta série estão sendo apresentados neste momento em São Paulo. A outra “Mulher Pássaro” pode ser vista até fevereiro de 2026 na exposição “Ònà Irin: Caminho de Ferro”, no Sesc Belenzinho.

“Ao transmutar o metal e moldá-lo, a artista imprime um refinamento técnico que remete à suntuosa produção milenar africana. Sua obra ressignifica tradições de matrizes africanas, trazendo à tona tecnologias, narrativas e estéticas que foram historicamente ignoradas ou apropriadas pelo Ocidente”, informa o site da Bienal de São Paulo. Para a maior exposição de arte da América Latina, Taquary ocupa amplo espaço dentro do Pavilhão do Ibirapuera. Usa fibra de vidro, esculturas em bronze, fios de contas para valorizar o universo afro-brasileiro e a presença feminina nos mitos de criação de matrizes iorubás. Por sua localização, força e beleza dentro do espaço expositivo, a “Mulher Pássaro” está famosa, ficou célebre, ganhou espaço na mídia nacional e internacional, em sites e blogs de arte.

 

Nery e o modernismo brasileiro

“Adalgisa Nery” (ca 1928), um óleo sobre tela de 35 x 27 cm, da Coleção Collaço Paulo, foi emprestado à Galeria Danielian São Paulo para compor a exposição “Ismael Nery: Crônica e Sonho”, com curadoria de Tadeu Chiarelli. Pintor, desenhista, arquiteto, filósofo e poeta de influência surrealista, Ismael Nery (1900-1934) é uma das mais importantes representações do modernismo brasileiro. O público entrou em contato com cerca de 60 obras, entre seis óleos e 56 trabalhos sobre papel — aquarelas, guaches, nanquins e grafites.

Crítico, curador e professor, um dos mais importantes pesquisadores da arte moderna e contemporânea no Brasil com experiência também na gestão institucional, na direção da Pinacoteca do Estado de São Paulo (2005/09) e do Museu de Arte de São Paulo (2015/17). Autor de livros e artigos sobre artistas como Ismael Nery, Geraldo de Barros (1923-1998) e Nelson Leirner (1932-2020), na exposição Chiarelli entrecruza as obras como um testemunho das experiências modernas do início do século 20, abrindo a possibilidade para um campo de reflexão sobre pulsões e identidades, algo que segue em evidência na atualidade.

Nery produziu inúmeros autorretratos, nos quais a identidade é posta em jogo como fragmento, deslocamento e recomposição. De acordo com o curador, a busca não é apenas pela imagem do indivíduo, mas pela sua dissolução em pares de opostos: corpo e espírito, sombra e luz, masculino e feminino. “Não por acaso, os retratos que fez ao lado de Adalgisa Nery, companheira e musa, sugerem um processo de fusão — como se o casal fosse uma só entidade, ambígua e indivisa. Entre o cotidiano da metrópole carioca e o mergulho no supra-real, Nery constrói uma poética da ambiguidade: o duplo, a androginia, a autoimagem, a figura humana deslocada para territórios metafísicos. Nos anos 1920 e 1930, em diálogo com a visualidade art déco e as pesquisas cubistas, já apontava para questões identitárias e existenciais que hoje soam contemporâneas”, escreve ele.

 

Poética de Sérgio Adriano H

A pintura de Sérgio Adriano H insere-se numa poética que tem o corpo, a palavra, a fotografia e a história como ferramentas discursivas. O vocabulário político no seu processo estético deve ser entendido como espaço, encontro e processos de transformação manifestados em seu modo disponível nas ruas, nas escolas, praças e galerias. Uma de suas marcas é o permanente desejo de contato direto com o público, a céu aberto, onde pode dialogar sobre as questões da vida e da arte. A obra “História do Brasil – Branca” (2021) foi incorporada à Coleção Collaço Paulo em 2025.

Leia mais: https://institutocollacopaulo.com.br/reexame-da-historia/

 

Serviço

O quê: Bienal de São Paulo

Quando: até 11.1.2026, ter. a dom., 10h às 18h com última entrada às 17h30; qua. e sáb, 10h às 20h, última entrada às 19h30

Onde: Pavilhão Ciccillo Matarazzo, av. Pedro Álvares Cabral, s.nº, Parque Ibirapuera, Portão 3, São Paulo

Quanto: gratuito

 

Serviço

O quê: “CORpo Manifesto”, mostra de Sérgio Adriano H

Quando: até 9.2.2026, todos os dias, exceto terças, 9h às 20h

Onde: Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo, rua Álvares Penteado, 112, Centro Histórico, São Paulo

Quanto: gratuito

 

 

Imagem de capa: Vista da instalação “Ìrókó: A Árvore Cósmica”, de Nádia Taquary, na 36ª Bienal de São Paulo © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo.

Imagem final: Exposição “Ismael Nery: Crônica e Sonho”, curadoria de Tadeu Chiarelli, na Galeria Danielian São Paulo. Galeria Danielian/Foto Divulgação

 

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