As formas de vida animal e vegetal ativam o pensamento pictórico de Willian Santos, artista curitibano que vive em Florianópolis (SC) desde 2020. Até o dia 11 de abril, na Sala Mira, do Centro Cultural Veras, parte de sua produção pode ser conhecida na exposição “Vésper”, a primeira individual realizada na cidade que reúne pinturas e objetos escultóricos de diferentes fases de sua trajetória. Entre as telas da mostra, destaca-se a obra “Vivífico” (2026), uma das mais recentes incorporações da Coleção Collaço Paulo, mantida pelo Instituto Collaço Paulo – Centro de Arte e Educação. Antes mesmo da chegada à reserva técnica, Marcelo Collaço Paulo, diretor-presidente do instituto, empresta o trabalho para a curadoria de Josué Mattos que pontua a capacidade das obras de promover outras modalidades perceptivas e “forças que se organizam a partir da instabilidade e dos limites da percepção”. Com uma atuação de quase 20 anos, em diferentes escalas, a pesquisa do artista aproxima arte e natureza em uma linguagem que se desdobra entre pinturas, desenhos, objetos e instalações site-specific.
Em seus 190 x 190 cm, a tinta acrílica ganha efeitos matéricos com cavalo marinho, conchas e musgo sobre a tela que alude a formas que estão além delas, acionando o imaginário do espectador. Em “Vivífico”, contextualiza Niura Borges, galerista e mestre em artes visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Willian Santos explora o universo dos oceanos por meio de uma poética pictórica que enfatiza a matéria e a cor. “No suporte, massas cromáticas e camadas de tintas sobrepostas constroem uma composição rica em figuras marinhas — incluindo polvos, tartarugas e arraias — além de conchas, fragmentos e vegetação, entremeados por objetos da intervenção humana. Como espaço de memória e vestígios, a obra ressalta a fragilidade dos ecossistemas marinhos, promovendo uma experiência sensorial e crítica que evidencia a influência do ser humano sobre esses ambientes, convocando uma reflexão sobre a preservação ambiental e o impacto das ações humanas na vida marinha”, explica a diretora da Galeria Mamute.
Encontro e afinidades
O contato de Willian Santos com Marcelo Collaço Paulo ocorre a partir de um processo de mapeamento dos espaços culturais e institucionais de Florianópolis, iniciado quando o artista chega à cidade em 2020. Nesse contexto, ele toma conhecimento do instituto por meio de um vídeo em que percebe a profundidade do diálogo e as afinidades nas concepções sobre a arte e a cultura. Em 2025, por intermédio de Niura Borges, da Galeria Mamute, conhece a casa, o projeto e o colecionador.
Apreciador de grandes formatos e de pinturas, ao qual o artista tem se dedicado nos últimos anos, em visita ao ateliê, Collaço Paulo é atraído de imediato, estabelecendo “uma conversa bastante generosa e aberta, daquelas que provocam reflexão e permanecem reverberando no processo de trabalho. O encontro acabou criando um campo de diálogo que se desdobrou naturalmente na realização da obra”, conta Willian que se sente muito gratificado ao presenciar a reação do colecionador ao ver a obra pela primeira vez na exposição “Vésper”.
A manufatura de “Vivífico” demanda cerca de três meses, um tempo que se alarga em se tratando de bens simbólicos: a criação liga-se a um processo mais amplo, que cinge anos de investigação e prática em ateliê. “Cada trabalho acaba condensando um conjunto de experimentações e reflexões acumuladas ao longo da pesquisa”, diz o artista. A obra já em processo por ocasião da visita ao ateliê se dá na continuidade dos estudos sobre água, matéria e ambiente, abordagens que se intensificam em relação aos oceanos e à vida marinha a partir da moradia em Florianópolis. Neste âmbito situa-se parte da motivação do colecionador, pois entende que são poucos os artistas moradores na Ilha de Santa Catarina que representam o mar sob a perspectiva adotada por Willian. “Ao longo da realização, procurei preservar a autonomia do trabalho e o fluxo natural do gesto, evitando interferências que pudessem alterar o desenvolvimento da pintura. Para mim, é no campo da liberdade que a obra encontra sua própria vitalidade” afirma ele.
O papel do colecionismo
Guardiões, os colecionadores têm papel significativo no sistema de arte, pois estão empenhados na conservação, documentação e circulação de acervos, bem como no apoio à pesquisa e produção do conhecimento. Investem sobretudo em projetos de arte e educação e, ocasionalmente, em carreiras artísticas. Muitos até aderem em movimentos de resistência cultural, salvando obras da destruição.
O colecionismo, entende Willian Santos, desempenha um papel fundamental na trajetória de um artista, tanto na construção de sua carreira quanto na formação de um campo de interlocução. “Quando colecionadores se aproximam do processo de pesquisa e estabelecem relações duradouras, cria-se um ambiente fértil de troca, no qual coleções — privadas ou institucionais — passam a dialogar com o percurso da obra e com as questões que a atravessam. Nesse sentido, trata-se de uma relação em que artista e coleção se fortalecem mutuamente, produzindo efeitos que extrapolam ambos e acabam por reverberar também na forma como o público se relaciona com a arte”, diz.
A legitimidade da trajetória de um artista, além de outros vetores como a qualidade da manufatura, se dá também pela inclusão de trabalhos em instituições museológicas e em coleções públicas e privadas. Willian Santos está representado no acervo do Museu de Arte do Rio (MAR/Rio de Janeiro); Museu Paranaense (Mupa/Curitiba); Museu Oscar Niemeyer (MON/Curitiba); Museu de Arte de Joinville (MAJ/Joinville) e agora na Coleção Collaço Paulo.
Sobre o artista
Willian Santos nasce em Curitiba, em 1985. Entre as exposições individuais destacam-se “Vésper”, Centro Cultural Veras, Florianópolis (2026); “Águas Compostas”, Zipper Galeria, São Paulo (2025); “Recôndito Plasmado”, Simões de Assis Galeria, Curitiba (2018); “Nem Todo Líquido se Desmancha em Ar”, Galeria Casa da Imagem, Curitiba (2013); “Desenhos”, Museu de Arte de Joinville (MAJ/2012). Entre as coletivas destacam-se “No Tempo das Sutilezas”, Galeria Mamute, São Paulo (2025); SP–Arte 2025, Zipper Galeria, São Paulo; “Pontos de Vida”, Coleção Catarina de Ylmar Corrêa, Centro Cultural Veras, Florianópolis (2024); “Antes e Agora, Longe e Aqui Dentro”, Museu Oscar Niemeyer (MON/2024); “Poéticas da Natureza”, Galeria Mamute, São Paulo (2024); “Objeto Sujeito”, Museu Paranaense (Mupa, Curitiba/2024); ArtRio, Soma Galeria, Marina da Glória, Rio de Janeiro (2021); “Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro (2018); “Pintura [Diálogo de Artistas]”, Caixa Cultural, Rio de Janeiro (2017); 19º Edital de Incentivo à Produção Chico Lisboa, Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (Margs, Porto Alegre/2016); 40º Salão de Arte de Ribeirão Preto, Museu de Arte de Ribeirão Preto (Marp/2015); “Construções de Ilusão”, Bienal Internacional de Curitiba, Sesc Paço da Liberdade, Curitiba (2013). Destacam-se também as residências artísticas “Infinitos Campos Gerais II”, Campo das Artes, Balsa Nova – São Luiz do Purunã (2022); Encontro de Artistas Novos – Cidade da Cultura de Galicia, Centro Cultural de España en Montevideo, Atlántida, Uruguai (2015). Entre os prêmios e indicações: 11º Prêmio DasArtes – Finalista (2021); Indicação ao Prêmio PIPA – Prêmio IP Capital Partners de Arte (2014 e 2019).

Willian Santos, artista que vive em Florianópolis desde 2022/Foto Divulgação
Imagem capa: Willian Santos. Vivífico, 2026, acrílica, cavalo marinho, conchas e musgo sobre tela, 190 x 190 cm/ Foto Divulgação